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Norte de Goiás

O novo agro que vem do céu

Drones mudam a lógica da produção rural, criam empregos qualificados e impulsionam a transformação digital no Norte de Goiás

26/05/2026 22h05Atualizado há 2 semanas
Por: Godofredo Costa

Já é a quarta safra em que Pedro Henrique convive com um zumbido diferente nas manhãs de suas fazendas. É o som da tecnologia. É o 'zoom' que traz o futuro até nós numa velocidade de balançar as folhas.

O zumbido dos drones redesenhou a paisagem e a economia do Norte de Goiás. O som que ecoa pelas lavouras, logo após o amanhecer, deixou de ser uma mera curiosidade tecnológica para se consolidar como o motor da agricultura digital na região.

Mais do que modernizar grandes latifúndios, a transformação ocorre na prática quando a tecnologia altera as formas tradicionais de produzir, reduz desperdícios, democratiza o acesso à inovação e, principalmente, cria oportunidades “realmente” reais.

Ao contrário da aviação agrícola tradicional, os drones permitiram que médios produtores e pequenos prestadores de serviço passassem a acessar tecnologias antes restritas a grandes grupos do agro.

Em uma região historicamente marcada pela saída de jovens para grandes centros, o avanço da agricultura digital começa a criar oportunidades qualificadas dentro do próprio interior goiano.

Jovens pilotos conseguem ingressar no mercado com salários de até R$ 8 mil, após poucos meses de treinamento. Pequenos prestadores de serviço movimentam operações que podem faturar mais de R$ 50 mil mensais durante a safra.

Modelo XAG: mercado de drones cresceu mais de 1.000% nos últimos quatro anos.

A frota de drones agrícolas no Brasil saltou de 3 mil para 35 mil em quatro anos. O mercado de agrosserviços aéreos transformou o manejo da terra e cria um novo e promissor ecossistema de negócios nos municípios da região.

Por aqui, essa mudança já movimenta produtores, pilotos, oficinas, empresas de assistência técnica, instrutores e prestadores de serviço especializados.

Pedro Henrique tem dois lugares nesse grupo: ele comprou drone pra cuidar das suas próprias lavouras e hoje é também um empresário que fatura alto prestando serviços a outros colegas do agro.

Atualmente, o uso de drones já é “padrão operacional” em mais de metade das propriedades rurais de médio e grande porte no norte goiano.

Agricultura de precisão: economia, eficiência e agilidade

Dados da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) apontam que os drones agrícolas vêm alterando a lógica dos cálculos de produção.

Além de evitar o esmagamento das plantas pelo tráfego de tratores (perda de até 7% na produção de soja), o vento das hélices abre a folhagem e os defensivos atingem partes internas, dobrando a eficiência da pulverização.

E tem mais! Enquanto pulverizadores terrestres consomem entre 80 e 200 litros de calda por hectare, os drones trabalham com volumes próximos de 10 litros. Eles voam baixo, são precisos, atuam em áreas alagadas e em terrenos onde tratores e aviões não conseguem operar. Além disso, mantêm o ser humano longe dos agrotóxicos.

Mais do que pulverizar, os drones são ferramentas de inteligência agrícola e aumento de produtividade. Equipados com GPS de precisão centimétrica, sensores térmicos e câmeras multiespectrais, conseguem identificar falhas de plantio, pragas, doenças e estresse hídrico antes mesmo que muitos sinais sejam percebidos pelo olho humano.

Este é o Parrot Disco-Pro AG, um drone de asa fixa projetado especificamente para o setor de agricultura de precisão.

Em poucos minutos, a aeronave mapeia centenas de hectares, trabalho que poderia exigir dias de exaustiva inspeção pelo homem, com toda a limitação dos nossos olhos e cansaço.

A identificação precoce permite intervenções mais rápidas e localizadas, reduzindo perdas e evitando a disseminação de problemas pela lavoura.

Na prática, isso gera economia com defensivos, combustível, mão de obra e retrabalho, além de tornar o manejo mais preciso, eficiente e baseado em dados científicos.

Em Campinorte, o empresário Muryllo Novato Duarte, formado em TI e especializado em gestão do agronegócio, atua há 13 anos na área. Foi pioneiro na região e hoje é um dos especialistas que prestam serviços na área de mapeamento de precisão e georreferenciamento.

Ele foca em atividades secundárias de alto valor agregado, como levantamento aéreo de áreas, identificação visual de falhas de plantio e monitoramento de pastagens por meio de drones de asa fixa equipados com câmeras e lentes específicas.

O drone deixou de ser apenas uma ferramenta de aplicação. Hoje ele coleta dados, gera mapas e ajuda na tomada de decisões”, explica Muryllo, cujo modelo de negócios, segundo ele, movimenta um ecossistema regional de cerca de 100 profissionais, entre operadores, mecânicos e técnicos.

Muryllo e seu XMobots, com sensores multiespectrais capazes (por exemplo) de identificar pragas ainda antes das folhas denunciarem uma doença.

Da lavoura para o mercado

Nosso amigo Pedro Henrique Pereira, o produtor rural que virou prestador de serviços de drones, enxergou na modernização uma oportunidade de diversificação de renda.

Gerenciando 500 hectares em solo uruaçuense e outros 800 em Niquelândia, onde cultiva soja, milho e sorgo, ele investiu em seu primeiro drone há quatro safras.

O que começou como uma solução para consumo interno virou uma microempresa altamente rentável. “Hoje, uso os equipamentos 30% em minhas áreas e 70% prestando serviços a outros agricultores”, revela ele.

No período de safra, os equipamentos não param. Para manter a competitividade, Pedro Henrique está substituindo seus dois modelos DJI Agras T40 por uma versão mais recente e robusta, o DJI T70P, focando em maior autonomia e capacidade de carga.

Segundo ele, seu faturamento por cliente varia de R$ 100,00 a R$ 110,00 por hectare. Com um custo operacional estimado em R$ 60,00, a rentabilidade do negócio gira entre 50% e 80% no pico da produção.

Durante a entressafra (de junho a outubro), quando a demanda por grãos recua, a atividade se mantém aquecida com o manejo de pastagens e combate a incêndios, muito comuns na região.

Mas, segundo Pedro Henrique, ainda há muito espaço no mercado e ele pretende se dedicar ao marketing para atrair novos clientes. Esse é um dos desafios reais de gestão de uma empresa tecnológica de campo.

E quanto custa o "brinquedo"?

Como em qualquer setor de tecnologia, as barreiras de entrada e os custos de manutenção ainda são elevados. Aqui no Nortão, quem ocupa nosso espaço aéreo são as duas maiores potências mundiais: as chinesas DJI e XAG. Elas dominam pelo menos 80% do mercado nacional.

O preço dos equipamentos que oferecem é relativamente próximo, quando se avaliam modelos e configurações equivalentes. Mas não é fácil comparar. Quando se fala em aeronave, cada marca tem um foco: 'escala' x 'autonomia'.

Depois vem o tal “ecossistema”: os acessórios adicionais necessários para que o drone possa trabalhar o dia inteiro numa área sem energia elétrica ou internet.

Fernando Chaves, coordenador técnico de vendas da Irriplan, explica que para garantir autonomia operacional “no meio do nada”, o produtor precisa considerar diferentes configurações de equipamentos: capacidades de carga, quantidade de baterias, sistemas de carregamento rápido, geradores de energia e softwares de navegação.

O pacote operacional varia conforme o perfil da propriedade e o tipo de aplicação desejada, podendo elevar significativamente o investimento inicial.

Fernando Chaves e o XAG 150P, à pronta entrega.

Para Luan Costa, gerente da Pivot, outra fornecedora da região, os equipamentos não substituem totalmente os pulverizadores terrestres.

O maquinário tradicional continua mais viável em grandes áreas planas e operações de larga escala. Mas os drones ganharam espaço como aliados importantes no manejo de áreas menores, acidentadas ou de difícil acesso”, explica.

Luan reforça outro fator decisivo para o produtor, na hora de decidir que equipamento adquirir: a assistência técnica e a estrutura operacional disponível na região, já que falhas durante a safra podem comprometer toda a operação.

Luan Costa: "Drones vieram para complementar, mas equipamentos tradicionais ainda possuem o seu espaço".

A lógica econômica: alugar ou comprar?

O produtor Pablo Bonifácio, proprietário de quatro fazendas localizadas entre Goiás e o Tocantins, encontrou na terceirização a resposta para um gargalo logístico. Para atender as necessidades das suas lavouras e pastos nas terras tocantinenses, ele preferiu o drone.

Sabe quem ele contratou? Pedro Henrique. “Ficou mais barato do que deslocar meu maquinário pesado de um estado para o outro”, relata. A experiência foi tão positiva que Pablo agora estuda investir em uma estrutura própria para otimizar sua produção consorciada de grãos e pecuária.

Pablo Bonifácio pretende adquirir o seu próprio equipamento. Está estudando a melhor configuração para o consórcio de grãos com pastagem.

Por outro lado, a escassez de mão de obra para os métodos convencionais tem empurrado até os mais tradicionais para o ambiente digital. O pecuarista Almir Marques , dirigente regional da FAEG (Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás) em Mara Rosa, administra fazendas em Uruaçu e Campinaçu ao lado do filho Raphael, que está sendo preparado para a sucessão. Eles planejam adotar os drones de pastagem no curto prazo.

Segundo Almir, a mão de obra para manter uma fazenda pelos meios convencionais está ficando cada vez mais escassa na região e a saída é “fugir” para a tecnologia. A preocupação maior do pecuarista é com o meio ambiente, já que os drones têm dificuldade em pulverizar áreas com grande volume de árvores e isso pode comprometer algumas delas.

Almir e Raphael Marques: sucessão em meio ao avanço tecnológico.

Empregabilidade

Essa virada de chave tecnológica gerou um efeito colateral de alto impacto social: a criação de empregos qualificados e de alta remuneração que atraem os jovens ao campo. Oportunidade para aqueles que buscam criar o próprio espaço no mundo do agro.

O piloto de drone agrícola tornou-se uma das carreiras que mais crescem no país, segundo Boletins de Tendências do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

No Norte de Goiás, o salário fixo inicial para quem opera essas máquinas varia de R$ 4.000,00 a R$ 8.000,00 mensais, podendo alcançar o teto de R$ 12.000,00 para profissionais experientes e autônomos.

Para suprir essa demanda e garantir que os produtores cumpram as exigentes regras do MAPA (Ministério da Agricultura) e do DECEA (Departamento de Controle do Espaço Aéreo), evitando multas severas, o SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) intensificou a oferta de treinamentos móveis e gratuitos.

Letícia Aurélio, Coordenadora Regional do SENAR GO no Norte goiano, explica o caminho das pedras. Os interessados devem acompanhar o calendário oficial de cursos da instituição, disponível no menu “Educação” do site da FAEG (Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás).

Letícia Aurélio, Coordenadora Regional do SENAR. Instituição oferece cursos gratuitos para toda a região.

No estado, a base de operadores qualificados já supera a marca de 3.000 profissionais certificados. À medida que o setor avança para o uso intensivo de inteligência de dados e fiscalização fitossanitária, órgão público como a Agrodefesa (Agência Goiana de Defesa Agropecuária) já está utilizando drones próprios para otimizar a fiscalização sanitária animal e monitorar lavouras e rebanhos em áreas de difícil acesso, além de regular e fiscalizar o uso de aeronaves de terceiros na pulverização agrícola em Goiás.

No céu do nosso Nortão, os drones já deixaram de ser novidade. Viraram ferramenta de trabalho, fonte de renda e símbolo de uma transformação silenciosa que conecta o interior goiano à nova era da agricultura digital.

Enquanto as pequenas aeronaves seguem cruzando as lavouras ao amanhecer, produtores, jovens operadores e empreendedores locais descobrem que o futuro do agro talvez faça menos barulho que os grandes motores do passado, mas pode gerar impactos muito maiores.

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