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JUSTIÇA

Caso Henri Borel: por que Jairinho foi condenado e Monique não?

Júri entendeu que a mãe falhou no dever de proteger o filho do padrasto, mas não teve intenção de matar; decisão ainda pode ser contestada

04/06/2026 11h52Atualizado há 1 semana
Por: Godofredo Costa

O caso Henry Borel mobilizou o Brasil durante mais de cinco anos. Quando o julgamento terminou, na madrugada de hoje (4), muita gente ficou com a mesma dúvida: se o júri entendeu que Monique Medeiros falhou em proteger o próprio filho, por que ela não foi condenada junto com Jairinho?

A resposta está em uma diferença jurídica que parece pequena, mas que mudou completamente o resultado do julgamento.

Jairinho, padrasto da criança, foi condenado a 43 anos, 9 meses e 20 dias de prisão pela morte de Henry. Já Monique Medeiros, mãe do menino, recebeu perdão judicial.

A decisão gerou revolta, dúvidas e muita discussão nas redes sociais. Mas, antes de formar opinião, é preciso entender exatamente o que o júri decidiu.

Tribunal do Juri do caso. Decisão final ocorreu na madrigada desta quinta-feira, 4 de junho. (Foto: Reprodução / CNN)

Monique foi inocentada?

Não. O júri reconheceu a participação dela, mas não como responsável pela morte. Eles entenderam que Monique falhou no dever de proteger o filho, mas que não ficou provado que ela queria a morte de Henry ou que assumiu conscientemente esse risco.

Essa diferença é fundamental. Para Jairinho, o júri reconheceu homicídio doloso. Ou seja, crime cometido com intenção de matar ou assumindo conscientemente o risco de produzir a morte.

Para Monique, os jurados afastaram essa tese e entenderam que houve homicídio culposo. Em outras palavras, uma grave falha de cuidado, mas sem a intenção de matar.

Monique Medeiros em entrevista exclusiva ao Domingo Espetacular, da TV Record, em 2025 (Foto: Reprodução)

O que é homicídio culposo?

Homicídio culposo acontece quando uma pessoa causa ou contribui para uma morte por negligência, imprudência ou imperícia.

Em linguagem simples: a pessoa erra, falha, se omite ou age de forma irresponsável, mas sem querer matar. Foi isso que o júri entendeu em relação a Monique.

O pai de Henry não concorda

Ao longo de todo o processo, o pai do menino, Leniel Borel, tornou-se uma das vozes mais ativas na busca por justiça.

Em uma das declarações que marcaram o caso, ele resumiu a dimensão da tragédia: "Eu tenho mais tempo lutando por justiça pelo meu filho do que tive com ele em vida." Henry foi morto aos quatro anos, e o processo se arrasta há cinco.

Após o julgamento, Leniel manifestou inconformismo com a situação de Monique e indicou que acompanhará os recursos que poderão ser apresentados pela acusação.

Engenheiro Leniel Borel, pai de Henry (Foto: Pedro Duran / CNN)

O que dizia a acusação?

Desde o início das investigações, o Ministério Público sustentou que Jairinho agrediu Henry e que Monique sabia das agressões sofridas pela criança. O órgão atuou com a assistência de um advogado contratado pelo pai de Henry.

A tese foi resumida na própria denúncia: "Jairinho espancou até a morte o menino Henry, enquanto a mãe, Monique Medeiros, se omitiu da responsabilidade."

Após o resultado, promotores e assistência afirmaram que pretendem recorrer da decisão relacionada a Monique, sustentando que ela foi corresponsável pela morte do filho.

Jairo Souza Santos Júnior, Dr. Jairinho. Médico e ex-Vereador pelo Rio condenado pela morte de Henry (Foto: Reprodução)

O que dizia a defesa?

A defesa apresentou uma visão completamente diferente.

Os advogados sustentaram que Monique não participou do homicídio, não tinha plena consciência da gravidade da situação e também foi vítima da relação que mantinha com Jairinho.

Em resumo, a defesa argumentou que ela falhou como mãe, mas não poderia ser tratada como autora de um homicídio doloso. Foi essa tese que acabou acolhida parcialmente pelos jurados.

Jairinho faz carinho em Henry ao chegarem ao apartamento onde o casal morava, no início da noite do crime (Foto: Reprodução de Câmera do Condomínio)

Por que a juíza deu perdão judicial?

Depois que o júri afastou o homicídio doloso, a situação jurídica de Monique mudou completamente.

No homicídio culposo, a lei permite o chamado perdão judicial. Isso acontece quando o juiz entende que as consequências do próprio fato já foram tão graves para a acusada, que aplicar uma pena deixa de fazer sentido.

No caso de Monique, a juíza levou em conta principalmente a perda do filho. Mas também considerou fatores como a enorme exposição pública, a rejeição social, os ataques sofridos nas redes sociais e agressões que ela teria sofrido durante o período em que esteve presa.

Em resumo, a magistrada concluiu que as consequências pessoais já suportadas por Monique eram suficientemente severas.

Elizabeth Machado Louro, juíza do caso. Formada em Jornalismo e Direito, já atuou como Defensora Pública e possui 30 anos de experiência como magistrada (Foto: Reprodução)

Se não houvesse perdão, qual seria a pena?

A pena para homicídio culposo simples varia de 1 a 3 anos de detenção.

Por isso, mesmo sem o perdão judicial, a punição de Monique seria incomparavelmente menor do que a aplicada a Jairinho.

Esse é um ponto importante para evitar confusão: a principal mudança produzida pelo júri não foi o perdão judicial. Foi o afastamento da acusação de homicídio doloso.

Casal sai de madrugada em busca de socorro médico. A criança já está desfalecida (Foto: Reprodução de Câmera do Condomínio)

O Ministério Público pode recorrer?

Pode. A acusação pode contestar a decisão se entender que o resultado foi contrário às provas produzidas durante o processo.

Mas isso não significa que a condenação de Jairinho será automaticamente revista.

No Tribunal do Júri, cada acusado possui situação jurídica própria. Assim, um eventual recurso pode atingir apenas a parte da decisão relacionada a Monique.

Se o tribunal concordar com os argumentos da acusação, o cenário mais provável seria a realização de um novo julgamento para ela.

Cristiano Medina da Rocha, assistente de acusação. Advogado anunciou que vai recorrer da decisão que "perdoou" Monique (Foto: Reprodução)

O que esse caso ensina?

O caso Henry Borel mostra que o Tribunal do Júri nem sempre produz respostas simples.

Às vezes, os jurados reconhecem falhas graves e responsabilidade pela tragédia, mas não enxergam prova suficiente para a condenação mais severa prevista em lei.

Foi exatamente isso que aconteceu neste julgamento. Monique não foi considerada totalmente inocente. Mas também não foi colocada pelo júri no mesmo patamar de responsabilidade atribuído a Jairinho.

A decisão pode ser criticada, defendida ou até revista por instâncias superiores. Mas só pode ser compreendida quando se separa a emoção da análise jurídica.

Sede do Tribunal do Juri de Uruaçu (Foto: Google Street View, com ajustes de IA)

E aqui em Uruaçu?

Se você ficou curioso para entender como funciona um Tribunal do Júri, não precisa assistir apenas pela televisão.

Na próxima terça-feira (9), a partir das 9h, o Tribunal do Júri de Uruaçu vai julgar um caso de homicídio. A sessão é pública e qualquer cidadão pode acompanhar.

É uma oportunidade para ver de perto como acusação, defesa, juiz e jurados constroem uma decisão que pode mudar a vida de uma pessoa para sempre.

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