Durante décadas, a política externa brasileira foi assunto restrito a diplomatas, embaixadores e especialistas. Hoje ela virou torcida organizada.
Há brasileiros comemorando eleições americanas, discutindo decisões tomadas em Washington, acompanhando disputas no Congresso dos Estados Unidos e tratando presidentes estrangeiros como aliados ou inimigos pessoais.
A política internacional deixou de ser um tema distante. Passou a fazer parte da guerra política brasileira. E talvez seja justamente aí que mora o problema.
Historicamente, a diplomacia brasileira seguiu uma lógica bastante simples.
O Brasil procurava manter boas relações com todos os grandes atores internacionais: Estados Unidos, Europa, China, Rússia, Países árabes, África.
A ideia era preservar liberdade de negociação. Quanto mais parceiros um país possui, maior sua capacidade de defender seus interesses.
Essa estratégia atravessou governos de diferentes orientações políticas. Mudavam os presidentes, mudavam os ministros. Mas permanecia uma certa continuidade institucional dentro do Itamaraty.
O ex-ministro Celso Lafer, chanceler do Brasil na gestão FHC, resumiu essa tradição numa frase bastante conhecida: “É sob a perspectiva do interesse nacional que o Brasil busca sua inserção no mundo.”
Parece uma frase burocrática, mas ela explica quase toda a lógica da diplomacia brasileira nas últimas décadas.
Essa tradição começou a ser questionada de forma mais intensa durante o governo Jair Bolsonaro.
Influenciado pelas ideias de Olavo de Carvalho, o governo passou a enxergar a política internacional não apenas como uma disputa entre países, mas também como uma disputa entre visões de mundo.
De um lado estariam os governos conservadores. Do outro, forças identificadas com o globalismo, o progressismo e a expansão da influência chinesa.
Foi nesse contexto que ocorreu a aproximação inédita entre Brasília e Washington durante o governo Donald Trump.
O principal formulador dessa política foi o então chanceler Ernesto Araújo. Ainda antes de assumir o cargo, ele escreveu uma frase que se tornaria símbolo daquele período: “Trump pode salvar o Ocidente.”
A frase dizia muito sobre a estratégia adotada. Pela primeira vez em muito tempo a política externa brasileira passava a ser apresentada de forma explicitamente ideológica.
É importante entender que os defensores dessa estratégia tinham argumentos legítimos.
Eles observavam que os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar do planeta. Continuam liderando áreas estratégicas como tecnologia, inteligência artificial, inovação e mercado financeiro.
Também argumentavam que o Brasil compartilha raízes culturais, históricas e institucionais muito mais próximas do Ocidente do que da China.
Sob esse ponto de vista, uma aproximação maior com Washington faria sentido.
O problema apontado pelos críticos não era a aproximação em si, mas transformar uma parceria estratégica em alinhamento automático.
Porque relações internacionais raramente funcionam na lógica da amizade. Funcionam na lógica dos interesses.
A experiência brasileira coincidiu com uma mudança importante no cenário mundial.
A rivalidade entre Estados Unidos e China deixou de ser apenas comercial. Transformou-se numa disputa tecnológica, econômica e geopolítica.
Nesse novo cenário, muitos países passaram a enfrentar o mesmo dilema: É preciso escolher um lado?
A maioria das grandes economias respondeu que não. Índia, Indonésia, Arábia Saudita, Vietnã e diversas outras nações tentam aproveitar oportunidades oferecidas pelos dois lados da disputa.
Compram de um. Vendem para outro. Negociam com ambos. Buscam vantagens onde elas existem.
Essa postura tem sido chamada por analistas internacionais de pragmatismo estratégico.

Mas existe um fenômeno ainda mais recente, e talvez mais preocupante.
Nos últimos anos, políticos brasileiros passaram a buscar apoio externo para fortalecer disputas internas.
Quando uma decisão judicial desagrada determinado grupo, surgem apelos a organismos internacionais.
Quando uma investigação atinge determinado campo político, aparecem pedidos de pressão estrangeira.
Quando um governo incomoda a oposição, surgem articulações para constrangê-lo fora do país.
E o curioso é que essa prática não possui lado ideológico fixo. Ela aparece à direita e também à esquerda.
Muda apenas quem está pedindo ajuda e quem está sendo alvo da pressão.
O problema é que governos estrangeiros não atuam para proteger a democracia brasileira.
Atuam para defender seus próprios interesses. Sempre! Essa é a função deles.
Por isso, quando brasileiros tentam transformar Washington, Bruxelas ou qualquer outra capital em árbitro dos nossos conflitos políticos, surge uma pergunta inevitável: quem controla esse processo depois que ele começa?
A história mostra que pressões internacionais, sanções econômicas e constrangimentos diplomáticos raramente atingem apenas governos.
Frequentemente afetam empresas, investidores, exportadores, trabalhadores e a própria imagem do país.
É por isso que democracias maduras costumam resolver seus conflitos dentro de casa, com eleições. Com tribunais. Com parlamentos. Com instituições nacionais.
Talvez essa seja a principal lição desse novo cenário mundial: Estados Unidos, China, Europa e Rússia continuarão defendendo seus próprios interesses. Sempre!
O Brasil continuará agindo como um país que negocia com o mundo inteiro? Ou como uma torcida organizada procurando um padrinho internacional para chamar de seu?
Em política internacional, amizade dura pouco. Interesse dura muito mais.
E talvez tenha chegado a hora de o Brasil voltar a lembrar disso.
Sensação
Vento
Umidade