Os números divulgados pelos Correios na semana passada assustam. A estatal que fechou 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões e um patrimônio líquido negativo em R$ 13,1 bilhões, anuncia agora um novo déficit de R$ 3,1 bilhões no primeiro trimestre de 2026.
Em 1995 o governo brasileiro olhou para um rombo bilionário no Banco do Brasil e tomou uma decisão difícil: admitiu o problema, colocou dinheiro na mesa e deu liberdade para técnicos colocarem ordem na casa. O resultado foi uma das maiores recuperações empresariais da história do país.
Três décadas depois, os Correios vivem uma crise ainda mais profunda. A diferença é que o tratamento foi adiado tantas vezes que a conta não para de crescer, e quem paga é o contribuinte.
Muitos veteranos do sistema financeiro ainda se lembram do cenário enfrentado pelo Banco do Brasil na década de 1990.
O fim da hiperinflação revelou perdas que estavam escondidas nos balanços. O banco acumulava problemas operacionais, créditos de difícil recuperação e uma estrutura pesada para a nova realidade econômica do país.
O governo Fernando Henrique Cardoso decidiu então fazer algo raro na administração pública brasileira: admitir o problema. Em 1996, o Tesouro Nacional realizou uma grande operação de saneamento financeiro, injetando cerca de R$ 8 bilhões no banco.
Mas o dinheiro foi apenas o começo. Veio junto uma profunda transformação administrativa. O Banco do Brasil profissionalizou processos, fortaleceu mecanismos de governança, ampliou decisões colegiadas, criou controles internos mais rigorosos e passou a operar com metas claras de eficiência.
Três décadas depois, o resultado é conhecido. O Banco do Brasil encerrou 2025 com lucro superior a R$ 37 bilhões e é reconhecido internacionalmente como uma das instituições financeiras mais sólidas do planeta.

Existe um tema que aparece repetidamente nos estudos sobre empresas estatais em todo o mundo: a interferência política.
Não se trata de discutir ideologias. Governos mudam, partidos mudam. O problema surge quando as estratégias empresariais passam a mudar junto.
Trocas frequentes de dirigentes, projetos interrompidos, prioridades alteradas a cada gestão e indicações sem critérios técnicos costumam produzir o mesmo resultado: perda de eficiência.
O economista Gesner Oliveira, professor da Fundação Getúlio Vargas e ex-presidente da Sabesp, foi direto ao abordar o tema. “A insistência em manter a empresa decorre do objetivo de manter uma área de influência, de manter cargos para nomeação política.”
A declaração foi dada durante entrevista à CNN Brasil ao comentar o futuro dos Correios. É uma crítica dura, mas que resume uma preocupação recorrente entre especialistas em governança.
Em empresas privadas, um projeto estratégico costuma sobreviver à troca de executivos. Nas estatais brasileiras, muitas vezes ocorre o contrário: muda o governo, muda a direção, muda o planejamento e recomeça a discussão sobre prioridades.
Nos últimos 30 anos, os Correios trocaram de presidente 15 vezes. Enquanto isso, o Banco do Brasil consolidava um modelo de gestão profissional baseado em governança, metas e decisões colegiadas.
Atualmente o governo aposta justamente na tese da profissionalização. Em setembro de 2025 assumiu a presidência da estatal Emmanoel Schmidt Rondon, funcionário de carreira do Banco do Brasil durante 25 anos.
A missão de Rondon é implementar o maior plano de reestruturação da história recente da estatal e tentar apagar um incêndio que começou muito antes de ele chegar.
A experiência do Banco do Brasil mostra que nenhuma estatal elimina completamente a influência política. O que o banco conseguiu construir foram mecanismos capazes de limitar seus efeitos.
Hoje, todas as decisões no BB são tomadas de forma colegiada. Desde um pequeno empréstimo na agência, até as grandes decisões estratégicas na cúpula. No mínimo, meia dúzia de pessoas precisa “assinar junto”, e isso dificulta qualquer tentativa de fazer o que não é o correto.
Pode parecer um detalhe burocrático, mas não é. Quando decisões dependem de conselhos, comitês e estruturas permanentes, torna-se muito mais difícil que interesses momentâneos substituam o planejamento estratégico.
Foi essa blindagem institucional que permitiu ao banco atravessar governos de diferentes correntes políticas sem abandonar seu projeto de longo prazo.
Os Correios enfrentam um desafio que o Banco do Brasil nunca precisou enfrentar. Quando o BB iniciou sua transformação, o mercado bancário brasileiro estava crescendo.
No caso dos Correios ocorre o contrário. Os produtos que sustentaram a estatal durante quase todo o século XX começaram a desaparecer. Cartas, telegramas, boletos e documentos físicos foram substituídos por e-mails, aplicativos, certificações digitais, internet banking e PIX.
Ao mesmo tempo, o mercado de encomendas passou a ser disputado por gigantes privadas da logística. A própria direção dos Correios reconhece hoje que a empresa enfrenta um problema estrutural.
Documentos internos relacionados ao plano de recuperação em andamento na empresa apontam a necessidade de superar o que chamam de “colapso do modelo tradicional de negócios”.
Talvez a pergunta mais importante não seja o que fazer agora, mas o que deveria ter sido feito há algumas décadas. No início dos anos 2000, a digitalização já era inevitável.
Os Correios ainda possuíam forte presença nacional, liderança de mercado, marca consolidada e uma infraestrutura que nenhuma empresa privada possuía.
Era o momento ideal para investir pesadamente em tecnologia, automação, centros logísticos, armazenagem e comércio eletrônico. Mas a transformação não veio, e hoje cobra a conta.
Enquanto empresas postais da Europa e da Ásia se transformavam em grandes operadores logísticos globais, os Correios continuavam dependentes de um mercado que encolhia ano após ano.
A participação da estatal no mercado brasileiro de encomendas caiu de cerca de 51% para aproximadamente 22%.
Ainda existe saída? A resposta é sim. Mas a janela está se fechando.
O atual plano de reestruturação prevê captação de R$ 12 bilhões, venda de imóveis, redução de despesas, programas de desligamento voluntário, modernização tecnológica e reorganização da operação logística. A meta é voltar ao lucro em 2027.
O Banco do Brasil recebeu R$ 8 bilhões para mudar. Os Correios estão buscando R$ 12 bilhões para sobreviver. A diferença parece pequena, mas ela separa uma empresa que enfrentou seus problemas de outra que passou décadas adiando decisões.
O prejuízo dos Correios não começou em 2025. Ele começou quando o Brasil percebeu que o mundo estava mudando e decidiu esperar mais um pouco. Depois mais um pouco. E depois mais um pouco.
Trinta anos depois, a conta chegou. De bike motorizada.
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