O que deveria facilitar a vida do contribuinte virou motivo de estresse para milhares de brasileiros em plena reta final do Imposto de Renda 2026.
Mesmo sustentado por uma estrutura bilionária de tecnologia, cruzamento de dados e digitalização estatal, o governo federal voltou a entregar um sistema cercado de falhas, inconsistências e dificuldades de acesso justamente no momento em que milhões de brasileiros dependem dele para cumprir uma obrigação legal.
A promessa da Receita Federal era clara: ampliar o uso da declaração pré-preenchida, reduzir erros e acelerar o envio das informações. Na prática, porém, o que muitos contribuintes relatam é exatamente o oposto: dados incorretos, dificuldades para acessar o Gov.br e medo de cair na malha fina por erros que não cometeram.
Neste ano, a Receita ampliou ainda mais o uso da declaração pré-preenchida, sistema que importa automaticamente informações financeiras, bancárias, médicas e trabalhistas do contribuinte.
Segundo a própria Receita, 61% das mais de 9 milhões de declarações entregues até abril utilizaram o sistema automático. O modelo também garante prioridade na restituição. Mas a expansão veio acompanhada de uma onda de reclamações.
Dados divulgados pela própria Receita apontaram que 19,3% das declarações enviadas no início do prazo caíram na malha fina. Posteriormente, o percentual recuou para 10,6% após o órgão identificar falhas nos dados da pré-preenchida.
O problema foi tão amplo que órgãos públicos, fundos de pensão e entidades da área contábil emitiram alertas oficiais aos contribuintes.
A PREVI informou que identificou “divergências” nas informações apresentadas automaticamente pela Receita Federal. Já a FUNCEF afirmou que encontrou “desatualização na base de dados”. O Superior Tribunal Militar também publicou alerta sobre inconsistências envolvendo rendimentos inferiores aos efetivamente pagos.
A Federação Nacional das Empresas de Serviços Contábeis (FENACON) enviou ofícios à Receita Federal relatando “volume expressivo de divergências” entre os informes oficiais e os dados importados automaticamente pelo sistema.
O cenário provocou indignação entre contribuintes e profissionais da contabilidade.
“Hoje a pré-preenchida não pode ser tratada como verdade absoluta. Ela virou apenas um ponto de partida, um rascunho”, afirma o contador Pedrinho Silva, da Condata, assessoria contábil que atende Uruaçu e responde por pelo menos 200 declarações dos seus clientes.
“O problema é que muita gente acredita que basta apertar um botão e enviar. Só que a responsabilidade continua sendo totalmente do contribuinte”, completa o profissional.
Além dos erros nos dados, outro foco de reclamação é o acesso ao sistema Gov.br. Para utilizar plenamente a declaração automática, o cidadão precisa possuir conta nível prata ou ouro.
Muitos usuários relatam dificuldades para validar biometria facial, acessar aplicativos bancários vinculados ou concluir as etapas de autenticação.
Nas redes sociais, multiplicam-se relatos de travamentos, lentidão e mensagens de erro durante o processo.

A revolta aumenta diante da estrutura bilionária do governo federal. A Receita Federal opera um dos maiores sistemas de cruzamento de dados do país, integrado a bancos, corretoras, empresas, planos de saúde, cartórios, INSS, eSocial e dezenas de outras bases digitais.
Grande parte da infraestrutura tecnológica é operada pelo SERPRO, estatal federal responsável também pelo Gov.br, CPF digital e diversos serviços eletrônicos do governo.
Só no ano passado, a empresa anunciou receita bruta de mais de R$ 5 bilhões, operando justamente os sistemas digitais que hoje concentram as maiores reclamações dos contribuintes.
Mesmo com toda essa estrutura, especialistas apontam que a modernização acelerada acabou ampliando a complexidade do sistema.
Um dos fatores mais citados é o fim gradual da DIRF e a migração das informações para plataformas como eSocial e EFD-Reinf. A mudança aumentou a dependência de integrações automáticas entre empresas, contabilidades e Receita Federal.
Segundo José Carlos Fonseca, superintendente nacional do Imposto de Renda, muitos erros vieram principalmente de pequenas e médias empresas que ainda enfrentam dificuldades na adaptação aos novos sistemas digitais.
Mesmo quando o erro nasce no sistema ou na transmissão das informações pelas fontes pagadoras, a responsabilidade prática pela conferência continua sendo do cidadão.
Especialistas recomendam que ninguém envie a declaração sem comparar cuidadosamente informes bancários, rendimentos, despesas médicas, investimentos, dados de dependentes e informações patrimoniais.

A orientação é clara: a pré-preenchida ajuda, mas não substitui a conferência manual. O prazo final para envio da declaração termina nesta sexta-feira (29).
Se tiver dúvidas sobre algum dado, envie no prazo mesmo assim e corrija depois. Isso é possível e não gera punições. Quem perder o prazo pode pagar multa mínima de R$ 165,74, podendo chegar a 20% do imposto devido.
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