Há poucos dias falamos sobre a disputa dos chineses e americanos pelas “terras raras” de Minaçu. O Norte goiano volta a ser campo de nova disputa de potências mundiais, e o alvo agora é o níquel de Barro Alto e de Niquelândia.
A Anglo não quer mais as minas. Elas estão produzindo muito, mas o preço derreteu o lucro. A China quer comprar, e ainda promete explorar novas jazidas no país.
A Europa viu no negócio um perigo estratégico e pisou no freio. Hoje, um terço do níquel da Anglo vai para a Europa. E como isso vai ficar, quando os chineses assumirem o comando das minas?
Durante décadas, o níquel era usado apenas para a fabricação de aço inoxidável. Mas o mundo mudou. Assim como as terras raras, o metal tem uma grande importância na produção de baterias de carros elétricos e nas indústrias militar, aeroespacial e hospitalar. Enfim, onde tem alta tecnologia, também tem níquel.
Além da quantidade, o níquel goiano é considerado tecnicamente valioso, possui boa qualidade industrial e está localizado num país estável, com estrutura de produção pronta.
A mineração em Niquelândia começou com a operação da Codemin, no início dos anos 1980. Décadas depois, a Anglo American ampliou sua presença no estado inaugurando, em 2011 a gigantesca planta de Barro Alto.
Era o casamento perfeito: Goiás entregava uma das jazidas mais relevantes do planeta e a multinacional entrava com tecnologia e bilhões em investimentos.
Durante anos, a operação movimentou a economia regional, gerou empregos e transformou as duas cidades em polos minerais estratégicos do Brasil.
No ano passado, as unidades de Barro Alto e Niquelândia produziram quase 40 mil toneladas de níquel contido em ferroníquel, segundo o último balanço da companhia.
Desse total, aproximadamente 85% foi exportado. E aqui entra aquele detalhe importante: cerca de um terço da produção goiana abastece diretamente a Europa. As indústrias europeias dependem do nosso níquel.
Apesar da produção elevada, a operação sofreu um tombo financeiro gigantesco. Em um ano, o lucro operacional da divisão brasileira de níquel da Anglo despencou 94%, de US$ 108 milhões em 2024 para apenas US$ 6 milhões em 2025.
As minas continuam produzindo a todo vapor, mas a queda no lucro vem do preço mundial do produto. O mundo do níquel virou de cabeça para baixo quando a Indonésia entrou pesado no jogo com dinheiro chinês, produção em massa e custo muito mais baixo.
O resultado foi uma avalanche de níquel barato que derrubou os preços internacionais e colocou até gigantes como a Anglo American contra a parede.
A gigante britânica resolveu reorganizar seus negócios globais. O próprio presidente mundial da Anglo American, Duncan Wanblad, afirmou publicamente que a estratégia da empresa agora é concentrar investimentos em apenas três áreas consideradas mais lucrativas: cobre; minério de ferro premium e fertilizantes.
O níquel deixou de ser prioridade. E foi aí que apareceu a MMG, mineradora controlada por capital estatal chinês, interessada nas minas goianas.
Mesmo com preços baixos no mercado internacional, Pequim considera o níquel um ativo estratégico para abastecer suas próprias indústrias de tecnologia, baterias e aço.
"Estamos entusiasmados com a aquisição”, afirmou em comunicado Cao Liang, CEO da MMG. “Proporciona uma diversificação importante para o nosso negócio e fortalece nossa presença na América Latina", conclui.
O acordo parecia praticamente fechado, até que a União Europeia resolveu puxar o freio de mão. As autoridades europeias abriram investigação para avaliar os impactos da venda sobre a concorrência e sobre o abastecimento do continente.
A AISI, entidade que representa a poderosa indústria siderurgiaca americana, enviou um pedido formal ao governo Donald Trump para também entrar no circuito.
Nosso CADE (Conselho de Defesa Econômica) também está avaliando se a operação pode comprometer a concorrência de mercado.
O bilionário turco Robert Yüksel Yıldırım, controlador da holandesa CoreX Holding, afirma que ofereceu quase o dobro pelas minas goianas da Anglo, mas a empresa recusou.
Isso incendiou ainda mais a teoria das forças geopolíticas. A CoreX denunciou a operação também ao INCRA, chamando a atenção para a leis de ocupação de terras por estrangeiros, e também ao Ministério Público Federal.
Na prática, os europeus e boa parte do mundo têm um medo muito específico: que uma empresa estatal chinesa passe a controlar parte relevante do fornecimento mundial de ferroníquel e priorize os interesses de Pequim em futuras disputas comerciais.
Mesmo com a crise internacional no setor, a operação ainda sustenta milhares de empregos diretos e terceirizados na região. Além disso, royalties da mineração (CFEM), impostos e movimentação econômica ligados ao níquel representam parcela extremamente relevante da arrecadação municipal.
Na prática, quando a mineração espirra, Barro Alto e Niquelândia pegam pneumonia.
Cenário 1 — A venda é aprovada: se a MMG assumir o controle das minas, a tendência inicial é de continuidade operacional e novos investimentos. Afinal, ninguém desembolsa meio bilhão de dólares para fechar uma estrutura desse tamanho.
Existe inclusive previsão de investimentos adicionais em novos projetos minerais ligados às jazidas de Jacaré, no Pará, e Morro Sem Boné, no Mato Grosso.
Para Barro Alto e Niquelândia, significaria manutenção de empregos, circulação de capital e possibilidade de expansão futura.
Cenário 2 — A venda é barrada: Se a União Europeia conseguir travar definitivamente a negociação, o cenário fica mais delicado.
A Anglo American já deixou claro que não pretende manter o níquel como prioridade estratégica de longo prazo. E operar um ativo considerado “fora do foco” e quase no prejuízo costuma significar redução gradual de investimentos e aumento da insegurança econômica.
E assim o Norte Goiano vai convivendo com a incerteza, mas descobrindo, aos poucos, que aquilo que durante décadas parecia apenas mineração regional agora virou peça estratégica da disputa econômica entre as maiores potências do planeta.
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