As pesquisas divulgadas nas últimas semanas revelam um fato que muita gente insiste em ignorar. Lula continua competitivo e, em levantamentos mais recentes, ampliando vantagens sobre Flávio Bolsonaro tanto em intenções de votos como em rejeição.
A cada nova semana surgem desdobramentos de investigações, vazamentos de informações e decisões judiciais envolvendo pessoas próximas ao núcleo bolsonarista.
Estamos a pouco mais de 100 dias da eleição. Quem acredita que tudo o que poderia vir a público já veio, provavelmente está subestimando a política brasileira.
E é justamente por isso que há dúvidas de que Flávio Bolsonaro conseguirá chegar lá como principal candidato da direita. Nem mesmo a “madrasta” abraçou sua campanha até agora.
Michelle parece estar ocupando o papel de uma "liderança preservada", que mantém sua força intacta para ser utilizada no momento em que a direita decidir o seu rumo final.
Mas o dado mais interessante não está nos números dos que lideram as pesquisas. Está na quantidade de brasileiros que não se sentem representados nem pelo lulismo nem pelo bolsonarismo.
Enquanto os dois campos mais barulhentos dominam as redes sociais e os debates políticos, existe um enorme contingente de eleitores procurando algo diferente.
Gente que não quer revolução, que não quer salvador da pátria e nem quer transformar político em santo. Gente que quer apenas que o país funcione.
Isso é um problema para a esquerda: ela só tem um nome, o de Lula. Concorde-se ou não com ele, ninguém conseguiu construir dentro do seu campo político uma liderança com força eleitoral semelhante.
Lula continua sendo o motor, o combustível e o principal ativo eleitoral da esquerda brasileira. Ele é o único, é o titular. O campo progressista não possui substitutos.
Já a direita enfrenta o problema oposto. Tem lideranças bem avaliadas. Tem alternativas. Tem um banco de reservas de dar inveja.
Tarcísio de Freitas e Ratinho Júnior já ficaram de fora da disputa. Eles optaram por permanecer como governadores de São Paulo e do Paraná e o prazo de desincompatibilização acabou em abril. Mas os nomes de Ronaldo Caiado e Romeu Zema nunca estiveram tão disponíveis e viáveis.
Ambos governadores bem avaliados, reeleitos em primeiro turno, com experiência administrativa e capazes de disputar espaço nacional. Por isso me parece estranha a tentativa de sustentar Flávio Bolsonaro como principal adversário de Lula.
Até entendo a lógica. Para Jair Bolsonaro, preservar o próprio sobrenome no centro da disputa não é apenas uma questão política, é uma questão de sobrevivência para uma família cada vez mais envolvida em escândalos e processos judiciais.
Também é uma questão de legado e da preservação de um grupo político que construiu sua identidade em torno de um único nome.
Mas política raramente respeita roteiros. A história brasileira mostra que campanhas longas produzem desgastes, revelam fatos novos e exigem mudanças de rumo.
Muitas vezes, aquilo que parece inabalável em junho, deixa de existir em agosto, quando termina o prazo para definição das candidaturas.
Imagine a quantidade de munição política guardada para os próximos meses. Será que o nome de Flávio sobrevive até lá?
Por isso acredito que a direita precisa começar a discutir novas opções desde já.
Ronaldo Caiado não é um político delicado. Nunca tentou ser. Tem estilo firme, fala direta e pouca paciência para rodeios. Às vezes o “Coronel” até exagera na dose. Pode não agradar a todos, mas poucos questionam sua disposição para enfrentar decisões difíceis. Em Goiás, transformou essa característica em uma marca de governo cujos resultados agradam.
Romeu Zema representa quase o oposto. Não é homem de grandes discursos nem de embates diários nas redes sociais. Prefere a linguagem dos números à dos slogans. Seu perfil é mais técnico do que político, mais gestor do que militante. Pode não despertar paixões, mas construiu uma imagem associada à eficiência administrativa também reconhecida pela população mineira.
Se a direita quiser preservar a ligação emocional com o eleitorado bolsonarista, Michelle Bolsonaro poderia ocupar um papel importante numa composição nacional.
Como vice de um candidato competitivo e capaz, ela ajudaria a manter viva a conexão com milhões de eleitores conservadores, sem obrigar o movimento a insistir exclusivamente no nome do "enteado" que enfrenta desgaste crescente.
Seria uma saída honrosa para a família e, ao mesmo tempo, uma forma de ampliar o alcance eleitoral da direita.
Enquanto as águas rolam sob a ponte, sigo observando. Sem paixão partidária, sem torcida organizada, sem fanatismo.
Faço parte dos milhões de brasileiros que ainda não encontraram alguém para chamar de candidato.
E você, de que lado está?
Sensação
Vento
Umidade